sábado, 17 de novembro de 2012

Ilha deserta

Não foi exatamente perdidos que nos deparamos ali, é certo que foi por meio de um processo bastante complicado, mas não necessariamente perdidos, apesar de sermos só nós dois naquele lugar inóspito.
O fato é que vínhamos de uma viagem relativamente longa, cheia de altos e baixos, e povoada por momentos de intensa calmaria e extrema turbulência. E foi depois de uma dessas turbulências que fomos parar ali.
Cada qual com seus machucados, uns mais graves, outros mais leves, porém ambos feridos.
Não sabíamos, mas éramos ainda estranhos um ao outro, porém é nos momentos difíceis que surge a solidariedade, a cumplicidade. Ajudei-a à tratar de seus ferimentos, e ela também curou os meus, e na condição que nos encontrávamos nenhuma chaga era apenas física. Logo a cicatrização dependia sempre de muita paciência e um profundo cuidado.
Nos primeiros meses tudo ocorreu bem, tínhamos o básico para sobreviver e gozávamos de uma tranqüilidade que não era rotineira em nossas vidas, pois estar ali nos fazia abrir mão de uma série de fatores que até então nos pareciam essenciais, como os amigos, a família, as refeições requintadas, nem TV possuíamos...
Foi então que o com o passar do tempo fomos tratando de construir o que não tínhamos, à nosso modo é claro, já que a vida no limite não parecia nos dar outra escolha, e como ali o tempo passava devagar, acabamos por nos ocupar em criar uma vida razóavel pra gente. Nem tudo deu pra resolver, mas passamos a comer melhor e a convivência nos deu além de uma amizade, um amor. Ainda tímido, mas evidente, também parecia óbvio que mais dia menos dia isso iria acontecer, já que éramos só nós e nossos espíritos ali, se defrontando, se refletindo, assim sendo, ou nos mataríamos ou acabaríamos apaixonados, e nesse caso ainda bem que conseguimos fazer brotar o amor.
E foi desse amor que vieram os filhos, e foram os filhos que foram nos ensinando a fortalecer o amor e a reparar como o tempo passava rápido.
Eu, percebendo que já estava ali há muito tempo, decidi que tentaria sair, precisava respirar outros ares, precisava reencontrar vida para além daquele lugar, mas ela achava que mesmo com as dificuldades tudo estava estável e não queria mais correr riscos. Já eu tinha cada vez mais certeza que não podia me conformar em passar o resto dos meus dias ali, só ali. Tentei então propor à ela um pacto, firmando que mesmo saindo sempre voltaríamos, entendendo aquele lugar como sagrado e parte da nossa história. Ela não quis, porém a cada dia pareciam mais evidentes as dificuldades, a escassez de recursos, a insalubridade do espaço para as crianças, nossas constantes brigas...
Foi assim que num dia de sol sequei as lágrimas, juntei as forças, o resto do que tinha e saí, me recordo bem, tinha nome de ilha nosso prédio. Edifício Cabo Verde.

2 comentários:

Tatiana Monte disse...

Ilhas

Dardjane disse...

Daniel meus parabéns amei esse blog.Dardjane