segunda-feira, 13 de junho de 2016

Etimologia


Saru, sáré, sarau...
Se o termo original desembarcou aqui
Com um navio de Portugal
Foi nessa terra
que a palavra encontrou o sal
Com o Tupi foi amansada
Como a mandioca brava, foi domesticada
Com os negros aprendeu a correr
De boca em boca foi mastigada
Fez-se alimento, alento pra correria
Hoje seu berço é a periferia
E não há quem não reconheça a ousadia
Palavra da corte vadiando com alegria
Em botecos, becos e academias
Sirê, saiçu, sarau...
É o erudito madrigal, mas também é amor de índio recriando o matagal
É divertimento Yorubá vindo do Senegal, é a mistura da língua, o quilombo atemporal
Onde a palavra bebe o vento
E regorgita o vendaval!









Saru: Manso em Tupi
Sáré: Verbo correr em Yorubá
Sirê: Diversão em Yorubá
Saiçu: Verbo amar em Tupi

sábado, 14 de março de 2015

Sem tempo pra ser artista

Por um instante fiquei preocupado ontem com uma idéia que tive...
Pensei se devia escrever ou não pra não esquecer. Passou.
E a única coisa que tenho certeza no momento é que não fez falta deixar de ter registrado.
A poesia que eu deixei de escrever, o filme que eu deixei filmar, a tese que eu deixei de erigir sobre o nada e sobre o tudo, não são mais importantes que andar de bicicleta na chuva, não são mais importantes que o beijo da criança.
Se penso em movimentar o mundo, que eu não me deixe de mundiar pra que o movimento do amor se faça em mim.
Teria sido lindo o filme que eu não fiz, o poema que não escrevi, teria talvez ganhado muitos prêmios minha tese sobre o amor como a única teoria de tudo possível, mas o cangote de minha nega esperava um cheiro que só eu podia dar, e as teses, filmes e poemas muitos outros poderiam pensar.
O futebol com meus filhos ninguém jogaria melhor que eu, o bom dia pro meu vizinho ninguém faria melhor que eu.
Talvez não tenha tenha tido grandes idéias, por que estava muito ocupado vivendo-as.
Ou simplesmente por que não tinha papel na hora, ainda bem!

quarta-feira, 11 de março de 2015

Dois corações

Eu num sei explicar direito o que acontece, só sei que o pote de açucar caiu e eu comecei a chorar. No meio dos cacos sem conseguir abaixar direito pra limpar eu não me aguentei.
Outro dia foi a propaganda do banco, aquelas cores, aqueles sorrisos em câmera lenta, o texto até parecia um poema na voz do narrador, chorei de novo. E outra vez também por que o gato da vizinha estava preso no forro e não conseguia sair, e outro dia por que uma mãe gritou com seu filho no metro, e outras, e outras vezes...
Fiquei irritada com meu marido outro dia por que ele mudou a cama de posição, ele estava querendo deixar mais confortável pra mim, eu fui grossa e ele devolveu a grosseria, resultado me desmanchei a chorar, e ele também.
Penso as vezes comigo: "Meu deus devo estar chata demais..." - E ao pensar que talvez esteja incomodando as pessoas tenho que segurar as lágrimas.
É difícil se desconhecer. Minha serenidade para lidar com as coisas, minha coerência, meu controle emocional, fui tudo pro espaço. Mas ainda pior é a luta com as roupas. De repente nada me cabe mais, calças, blusinhas, calcinhas e até sapatos. Eu toda inchada me olho no espelho e sinto vontade de chorar por mais uma vez.
Se eu falar você num acredita, eu adorava alho, toda minha comida tinha alho, mas de uns tempos pra cá é só sentir o cheiro pra ter ânsia de vômito o dia todo. Isso também acontece com cheiro de brócolis, só que um pouco pior, eu acabo vomitando mesmo. E ontem foi no refeitório do trabalho, envergonhada e constrangida advinha o que aconteceu?
É... quando me tranquilizo e entro novamente em sintonia com meu corpo, e decodifico todo o amor que estou gestando, reflito comigo mesma: "Sentir tudo isso, só mesmo carregando dois corações!"

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Violar

Em teus cabelos duros
meus dedos violam almas
nas tuas curvas ressoam o carma dos lenhadores
e a calma dos sonhadores
Teu braço se funde com o meu e nossas mãos juntas
rezam a prece dos fanáticos e dos ateus
Sua sonoridade de prata
chove com a minha voz uma melodia fininha
e assim, nós, o violeiro e a viola
seguimos a violar, os que moram dentro de si
e os que vivem sem lar
pelas estradas da vida

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Manga-rosa-espada

Ela tem olhos de mangá
e vive a mangá d'eu que tenho uma luzinha na mirada
Quando agente ama o ar se perfuma com um cheiro de manga-rosa-espada
e banho de mangueira num esfria o calorão
Vivo mangueando uns trocado pela estrada
e arregaço as manga pra fazer nosso feijão
Por isso, num se magoa se eu me ademora um pouco
qu'eu fico louco aqui também na solidão
Daqui a pouco vou chegando e te levo uma mangaba
ai agente faz um suco e se acaba no seu macarrão!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Por debaixo do pano

Mesmo sob o sol escaldante, no cimento da calçada ela permanecia coberta, e era como se a cidade toda encobrisse algo, uma chaga incicatrizável. Histórias e vidas soterradas pela miséria.
Mara era seu nome, e na essência já guardava a amargura. Nem um bom dia, nem um sorriso, nem um oi. Nem mesmo um esbravejar, um balde d`agua, um sai pra lá, ela só era vista pelos seus semelhantes de sarjeta, pelos ratos e gatunos da noite. O medo do furto, do soco, do estupro, só fazia querer cada vez mais se esconder. Os porteiros dos condomínios só sentiam sua presença quando percebiam que alguma sacola fora rasgada nas grandes lixeiras trancadas da rua. Provavelmente em alguma das incursões de Mara em busca de alimento. Resmungavam dizendo: "Deve ser aquela criatura que vive encoberta na calçada ali um pouco a frente, foi ela que rasgou pra comer lixo, só pode ser!"
Chamavam de criatura, pois o olhar descuidado mal sabia diferenciar o sexo da pessoa, era para toda a elite do lugar um vulto, uma presença incomoda e sombria que sujava o bairro. Mesmo os trabalhadores do lugar, ou os menos abastados que por ali passavam fingiam não vê-la. Alguns dias ela forçosamente gritava aos quatro cantos soltando seus demônios chigando a todos e rosnando até mesmo para as crianças e ainda assim permanecia invisível, tudo que se ouvia era: "Vixi atravessa a calçada que é mais uma alma penada tenho um surto!"
Condenada, era como ela se sentia, condenada a solidão, às memórias da agressão familiar, condenada a fome, às drogas, a invisibilidade!
Cansada de tudo certo dia se cobriu para nunca mais descobrir. Ali num banzo ancestral ela se apagou. Não chegou a desviver, pois só desvive quem já teve vida, nem morreu, pois a morte em vida já lhe era comum. Apenas sucumbiu. Sua presença ingrata pela uma última vez foi sentida depois de um mês quando todos do bairro já não sabiam onde procurar a origem do cheiro asqueroso que se espalhava com o vento. Foi um catador que mesmo acostumado com o cheiro das mais fétidas sacolas percebeu uma presença diferente imóvel e putrefata no canto da calçada, e chamou a polícia. As senhoras futriqueiras das sacadas olhavam atentas o trabalho dos PMs, os porteiros sussurravam baixinho: "Agora o lixo vai parar de aparecer furado na lixeira!"
As moças de classe média passeando com os cachorros não sentiram muita diferença a não ser pelo fato de ter de passar pelo meio da rua arriscando sua vida e a segurança de seus animaizinhos de estimação, já que a calçada estava tomada pelo pessoal da perícia e do rabecão. Mara foi transferida do cobertor para o saco preto, permaneceu encoberta, invisibilizada pela cor, pelo sexo, pela condição, pela sociedade que sempre esconde o que rejeita debaixo do pano.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Unguento

Aguda a canção dos Agudás,
reverberando canções de retorno ao lar sobe o mar de lágrimas
Mas como se volta p'ruma casa desaprumada pelo tempo?
Como reinventar a liberdade? Como se reencontrar num presente sem pretensão.

Não se ensina o desalento, simplesmente preparam-se os unguentos
e o novo corpo reestabelece o novo mundo
e no fundo todos já sabiam voltar