terça-feira, 26 de junho de 2012

Não sei pr'onde eu tô indo, mas sei que tô no meu caminho...

"VOCÊ É AQUILO QUE FAZ, QUANDO NINGUÉM ESTÁ VENDO."

Li essa frase do Sérgio Vaz no seu livro "literatura, pão e poesia" e me questionei mais uma vez sobre a velha questão da identidade. Estava no ônibus, MP4 no ouvido tocando capitulo 4, versículo 3 do Racionais, saquei o livro e abri em qualquer página. Bati o olho na frase e me voltei para fora do ônibus, um puta trânsito na descida da Rebouças. Me veio quase que instintivamente a reflexão já empoeirada: -Afinal, quem sou eu?
De bate-pronto Mano Brown respondeu:

"Playboy forgado de brinco: um trouxa,
Roubado dentro do carro na avenida Rebouças
Correntinha das moça
As madame de bolsa
Dinheiro: não tive pai não sou herdeiro
Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal
Por menos de um real
Minha chance era pouca
Mas se eu fosse aquele moleque de tôca
Que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca..."

Essas coincidências vivem acontecendo comigo, não por acaso, é claro! É que talvez eu tenha o poder involuntário de coincidir a realidade com as músicas que ouso e com as literaturas que leio, ou pode ser também que isso tudo seja apenas um fator explicito de que minha cabeça não descansa nunca... Mas o fato é que lá estava eu, na Rebouças, essa mesma avenida citada pelo Brown, reparando exatamente o contraste entre a mercedes lotada que me levava e as várias mercedes vazias e insulfilmadas que planavam à dois quilômetros por hora na faixa ao lado do corredor. A perguntava navegava na consciência: -Quem sou eu?
Nesse contexto, várias respostas vinham a mente, ainda mais quando se está voltando do trampo... Mas decidi fugir do óbvio, e busquei comparar quem eu era há 10 anos atrás e quem estava sendo no atual momento. A primeira constatação veio com a música. Lembrei que no auge dos meus 15 anos eu só ouvia Racionais involuntariamente (nesse instante lembrei de uma outra música "Quantas canções que você não cantava, hoje assovia pra sobreviver"), afinal era uma fase em que eu me encontrava tomado pelo universo punk, descobrindo, minha maneira de atuar politicamente no mundo, encontrando uma maneira de me situar na realidade em que eu vivia, e com as expectativas que eu tinha de transformação. Fui tão longe que me veio a boca o sabor do vinho "cantina da serra" que me acompanhava nas noitadas de rebeldia (lembrei daquela do inocentes "de noite quando a cidade dorme, anjos negros de asas sujas escuras saem de suas tocas e tomam conta das ruas. São os reis da diversão, do ódio e da solidão...").
Sabe que na minha época de adolescência era quase que obrigatório curtir Racionais, talvez por isso mesmo eu tenha ido curtir um Rock'n Roll, só para ser do contra. Me lembro como se fosse hoje as tretas com um camarada na escola que falava que eu curtia música de bicha por que gostava de Legião Urbana. Doidera né, eu defendia o Renato Russo e toda a rapa do rock nacional, fazia parte de um seleto grupo que curtia o som brasileiro, e por conta disso mesmo acabei retornando ao Racionais, anos depois, sem pressão de ninguém. Sei lá, bateu uma saudade das músicas que eu sabia de cór só ouvindo de tabela.
Acabei percebendo naquele ônibus o quanto a música fazia parte da minha vida e como foi dela que bebi as maiores filosofias que compõe minha caminhada nesse mundo. A sensibilidade que a música caipira dos meus pais me proporcionaram, o senso político do punk, a identidade do rap, o gingado do samba... Pois é, nenhuma leitura me deu isso, apesar do gosto que eu fui adquirindo pela linguagem. Assim sendo, pedi licença a Sérgio Vaz e guardei de volta o livro na mochila e me concentrei com mais afinco na música que tocava, e não a toa era um Raulzito "não sei pronde eu tô indo, mas sei que to no meu caminho..." Um leve riso me estampou a face e a resposta para a pergunta inicial me veio a mente: -Porra eu sou tudo aquilo que eu me permiti ser! Ou seja, eu sou movimento, assim como as canções...
Não Haveria lição maior para se receber da música se não essa constatação. Me parece óbvio, não somos o que fazemos para ser sinceros com as nossas convicções, mas sim o que fazemos para ir além daquilo que nos parece essencial. Isso é ser humano, ir além sempre! Ora, se eu não tivesse me permitido ouvir Racionais só por que o rock e a MPB sempre me foram mais viaveis eu com certeza não seria quem sou e não teria a visão de mundo que tenho hoje.
Engraçado é perceber que muitas pessoas se matam ou matam as outras por uma certa fidelidade ao gênero musical. Alguns rockeiros seguem a odiar os pagodeiros, alguns Punks seguem a odiar os Emos, muitos Rappers seguem a odiar os "playboys" da MPB, e todos seguem no mesmo ônibus, e o sistema segue a adorar pobre contra pobre, por uma mera questão de estilo.

Um comentário:

Maria Helena disse...

Demais Dani! As músicas me provocam dessa mesma forma! Me fazem pensar, repensar...

Muito bom Dani!