sexta-feira, 8 de junho de 2012

Corte seco

Ele observava os pingos da chuva escorrendo na janela do ônibus. Ouvia Elomar no meio do caos urbano, parecia cena de filme: "Joana, vem ver, os sapinhos tão cantando tiranas de bem querer". Por um instante transportou a chuva cinza do trânsito de São Paulo para o terreno seco do solo nordestino. A poeira subindo, a lama empoçando, o verde apontando no horizonte.
Corte seco. Freada brusca põe o cidadão de volta no seu lugar, pensa no atraso, na impotência de seus próprios passos naquela situação. Olha novamente para os pingos da chuva escorrendo no vidro e reflete se não é sua própria vida que se esvai lentamente, dia-a-dia no fluxo da rotina.
É tomado então por um fúria libertina, dá sinal e sai empurrando todo mundo até sair do ônibus lotado. Começa então a despir-se do uniforme da empresa, joga a mochila fora e deita-se no canteiro central da Avenida paulista. Olha para o céu e percebe quase em câmera lenta os pingos da chuva banhando sua face. Sente uma sensação de quase morte, mas ao mesmo tempo uma enorme redenção.
Corte seco novamente. Uma senhora da-lhe um forte empurrão: -Oh rapaz, num tá me ouvindo?! Fecha esse vidro direito!!! Ta respingando em mim! Tira os fones de ouvido, fecha a janela e seca o rosto com a manga da blusa, pensa alto: -Que belo sonho!

Um comentário:

Maria Helena disse...

Lindo Dani! Deu sensibilidade ao duro cotidiano...

Beijão