segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

(in)color

Você pode até dizer que não me sabe,
mas eu te sei me negando quem é
Eu...
Eu sou o negro do IBGE, o moreninho, café com leite, manja?
aquele que se passa por branco quando tá careca,
se descolorir então é o próprio alemão...
Aquela cota que somada aos pretos de verdade
constróem o país de maioria negra
Eu sou o que as vezes foge da regra na calada do açoite
quando alguém de pele mais escura some no meio da noite
Eu sou o negro do IBGE, o mulatinho, lembra?
Aquele mais escurinho,
que a vó branca diz ser os mais feinho da família.
O que não era o chefe, mas com certeza tava na quadrilha.
A supremacia parda cantada pelo Brown...
O marrom, o meio tom
meio índio, meio branco, o queimadinho de sol
o indeciso,
será?
Então esqueceram de explicar
por que só eu apanhei naquele enquadro
um ruivo, um galego e uma loira quase albina,
folgados que só a porra
e o em cima do muro que levou a pior
Mas não, não tinha nada a ver com a cor, eu só dei azar
assim como quando a minha véia (uma criança preta) e sua mãe branca foram acusadas de roubo numa loja de sapatos nos idos de 70, claramente nada tinha a ver com a cor,
jogaram esse verde...
e a corda continuou estourando do lado mais preto,
como bem diz o poeta...
Essa dúvida é mais um de meus privilégios
Homem/hetero/periférico/quase branco
Se não fosse o periférico quase era o inimigo
Se não fosse o quase branco, quase era respeitado
Eu sempre tive dúvida, por mais certezas que eu quisesse ter
Mas tenho amigos e familiares que nunca puderam se dar a esse luxo
como será que é nunca poder ruminar uma humilhação indireta?
Ter tudo assim jogado na cara? todo dia sem camuflagem?
Eu devo ser mesmo é bege como as calças dos presidiários
cor de burro quando foge, cor de fezes, num é assim que dizem?
qual a viagem?
Na folia de reis um herege, na macumba um falso nagô
e mais dúvida e mais caô
O sarará, branco do cabelo ruim
Na real eu não sei o que esperam de mim
o movimento clama pra que todos de sangue negro se assumam
Mas assumindo me torno oportunista
calado um traidor
o estado não me compreende,
nem me põe terror
Na real essa dúvida não me dói
não me importo em viver com ela
minha identidade étnica é uma interrogação
nem vou por isso dizer que sou brasileiro,
e acabar miscigenando essa desculpa verde amarela
não vou alimentar o mito de democracia racial, essa balela
viver na moral é o que eu tenho quisto
E me nego a pedir visto pra estar nos lugares
não aceito olhares tortos nem nos shoppings
nem nos bares
Meus amigos e família foram forjados no ventre dos dias
no brilho dos olhos, no suor dos mutirões
nas tretas de rua e na dobra dos violões
não atesto ancestralidade
vivo e compartilho com os meus
a esperança de um futuro com mais humanidade
onde a cor nos diferencie, mas não nos separe!

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