quinta-feira, 2 de abril de 2009

Árvore

Um dia me julgou infantil,
disse que eu não tinha rompido com o cordão umbilical
que me prendia a minha mãe.
Esbravejou de boca cheia dizendo ser independente,
mas escondia atrás do berro a menina sem rumo, a princesa decadente.
Eu mirava em ti o jardim vermelho de sonho utópico
onde as sementes floresceriam plenas numa linda primavera de praga.
O tempo passou e as flores murcharam.
Eu me descobri árvore, crescendo e pulverizando no ar
a minha contribuição pro futuro,
enquanto você sequer vislumbrava o que havia além do muro.
Pois é, não me desconectei da minha história,
você tinha razão, um forte cordão me liga a eterna pachamama
como toda árvore que se presa, com suas raízes bem fincadas no solo
com os braços levantados pro céu e a cabeça tocando as nuvens
o tronco ligando a razão ao imaginário,
muito diferente do campo binário onde você com você mesmo prefere viver.
Sim, sou árvore, maduro e consciente
sigo o caminho ancestral guiado pelos antepassados
com amor e não adornos, nossos velhos são sábios por natureza
e nossa beleza não é plástica.
Sua morte alimenta a existência do meu povo,
seus nutrientes enfermos são suavemente filtrados por nossas raízes.
Riqueza, jamás, só o básico pra continuar a partilha.
E assim quando a trilha me chamar pro além mais,
morrerei de pé, definhando até a última folha
e reciclando tudo que meu corpo puder doar
pra quem quiser, pra quem rasgar...
o sublime ventre da mãe terra.

2 comentários:

Maria Helena disse...

Belo poema!

Rogerio Pixote disse...

mocotodefrango.blogspot.com
Rico em nutrientes, tbm para árvores.